quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Hoje senti a falta dos teus versos


Hoje senti a falta dos teus versos,
de corrigir as palavras que eram tuas,
de transformar os teus amores.
Hoje senti a falta
do azul das tuas flores.

Senti que me faltavam as rimas,
que me faltavam as sílabas tónicas,
que as vírgulas se retiravam do papel,
para se encontrarem nas entrelinhas
com os pontos de final.

As exclamações ficaram no final de cada frase,
envolvidas com as interrogações.
Dos verbos só saíram adjectivos.

Tentei as reticências,
mas apenas saíam pontos obtusos.

Os sonetos perderam a métrica,
transformaram-se em quadras soltas.
Rasgaram-se as estrofes acorrentadas,
entre as linhas de um poema adiado,
nas folhas rasgadas e atiradas ao vento,
que as arrojava por todo o lado.


Abro o jornal,
enquanto o ruído das janelas,
derruba as cortinas entre o lamento das ruas,
para encontrar outras palavras,

que não tenham letras tuas.


Texto: Victor Gil
Fotografia: Pedro Gil

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Tobias - O Nosso Melhor Amigo



(Um amigo é mais que um irmão.
É uma extensão do nosso abraço)

Um amigo é o braço que nos falta,
o caminho que se ergue,
entre os atalhos que a vida encerra.
É a voz dos vendavais
entre as ruínas da terra.

Um amigo é a lealdade de acreditar,
que nos vão dizer as coisas,
sem bater com os pés no chão.
Um grito preso na garganta,
que se solta sem traição.

Entre a mentira das palavras,
é um punhal de carinho,
espetado no coração.

(A todos os meus amigos e amigas)



Texto: Victor Gil
Fotografias: Pedro Gil

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Merda de Vícios



Cheiro a noite nos restos de uma taberna,
espalho os dedos na face conspiradora do balcão,
buscando entre os vultos exaustos,
o feroz cigarro que mutila a escuridão.

Penetro a superfície amarrotada,
enquanto os meus pés se diluem
nos mosaicos estendidos pelo chão,
enquanto desfaço os lábios numa cerveja gelada.

Desenho nos olhos um desvario,
um desejo obsceno na nudez da manhã.
Enquanto penteio os cabelos atados pela noite,
num grito que goteja,
sem prazer, nem amante.



Texto: Victor Gil
Fotografia: Pedro Gil

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Raios de Vida


Inquieta-me este repouso,
estes raios de vida ignorados no tempo,
este lugar que desanima sem enredo,
como um punhal espetado no vento.

Quantas vezes estas rodas se embriagaram de lama
na lenta pressa dos caminhos.
Quantos segredos guardaram
nas estranhas armadilhas que as pedras estendiam.

Sou suspeito porque tenho um coração iludido e doce,
porque procuro sempre além dos desejos.
Sou presa fácil na poeira dos carreiros,
um mendigo da memória.

Sou vendaval de cascos ferindo as ladeiras,
temporal de palavras sem história.


Texto: Victor Gil
Fotografia: Pedro Gil

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Sombras


Entre os galhos quietos,
apenas consigo lembrar-me
das sombras onde espalhámos os dias.

A gasta nora perdeu o sentido da sua rotação.
Deixou de se sentir o ruído da água a correr,
dos brados do homem,
dos clamores da terra,
dos passos do burrico ao bater os cascos pelo chão.

É como a árvore abandonada
entre as mãos do tempo,
uma lágrima solta no vento.



Texto: Victor Gil
Fotografia: Pedro Gil

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Meia Porta


Repara no assento solitário,
na meia porta,
nas silhuetas das sombras,
no terreiro onde se inventavam os dias,
que afastavam borrascas e ventanias.

Repara nas paredes brancas,
nas pedras do chão,
no banco sem beijos de amantes,
sem a loucura de uma intriga,
sem dedos enleados,

sem gestos de paixão.

Agora o tempo foge nas asas do vento.
As tábuas velhas escoam a luz,
como setas douradas varando os corações.
Aqui o chão,
é um grito de ilusões.



Texto: Victor Gil

Fotografia: Pedro Gil

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Desarrumação


Só a sombra afaga esta fogueira de tábuas magoadas.
Os restos da janela encobrem a desordem dos lençóis,
as feridas em farrapos, os baús fechados,
os embrulhos bizarros que ocultam no escuro,
os telhados e as folhas que encobrem os becos.

Os terraços já deixaram cair os bichos da incerteza.
Alheios à desarrumação decadente da indiferença,
à violação dos dias, dos sítios sem nome,
às paredes quebradas que arrastam o tempo,
onde se esconde o silêncio dos forçados à fome.

Digo bom-dia às ruas, mas só as folhas me respondem.
Só os bêbedos afastam a Lua para ver as estrelas,
entre as pedras nuas, numa cama estreita,
entre os safanões no chão descomposto,
entre as tralhas gastas, nova vida espreita.



Texto: Victor Gil

Fotografia: Pedro Gil

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Repouso


Já que não posso amanhecer-te,
deixo-te que repousar no meu colo.
Mas só se adormeceres nas tábuas isoladas,
se não falares das coisas que me tentam,
se deixares de invadir com rasgões as madrugadas.

Deixo-te repousar da mansidão da noite,
sacudir as ruas devoradas pelo sol.
Mas não pronuncies as palavras do silêncio,
não espalhes os braços que abandonei,
porque não quero derramar-me em teu regaço.

Deixa-me mergulhar dentro da manhã,
entregar-me à limpidez do dia.
Mas não libertes os troncos escondidos,
nem as raízes onde eu anseio regressar,
nem transformes o momento em ventania.



Texto: Victor Gil

Fotografia: Pedro Gil


terça-feira, 14 de abril de 2009

Para Além dos Muros


Vou mandar arrancar os portões,
passar para além dos muros,
alterar a extremidade das veredas.
Afastar os postigos das estrelas,
onde me espreitam só as tardes inquietas.

Nada mais existe senão o horizonte
a abrir-se ali mesmo adiante,
limitado entre os marcos das paredes,
entre o clamor da luz do firmamento.

Onde a mudez das pedras são lamentos,
onde as orlas dos caminhos são silêncio,
sem palavras para mandar calar o vento.



Texto: Victor Gil
Fotografia: Pedro Gil

terça-feira, 31 de março de 2009

A Espera


Um rosto perdido, a solidão da paragem,
a demora da tarde, a incerteza da vida.
Na pátria desigual, o gemido da aragem,
no olhar distante, a terra esquecida.

Os vidros listrados, as linhas direitas,
o corpo dobrado, as distâncias longínquas.
Aguardas no adro, o trilho que espreitas,
na nudez empedrada, as palavras usadas.

As botas cansadas, a gasta bengala,
arrojas espadas aos moinhos de vento.
Os olhos vigiam na tarde que embala
e a noite se acerca em remoto lamento.

Onde as sombras tristes escurecem os muros
e os velhos bancos gastos pelo tempo.



Texto: Victor Gil
Fotografia: Pedro Gil

quarta-feira, 25 de março de 2009

Transgressão



Avanço por causa do verde,
num vermelho intermitente de amarelo,
no sentido oposto em transgressão.

Ultrapasso um traço contínuo.
Estaciono em paragem proibida,
veículo abandonado fora de mão.

Deslizo nas curvas
e contracurvas do teu corpo,
constantemente a abrir.

A multa,
o reboque,
a estranha sensação que ando a transgredir.


Texto: Victor Gil

Fotografia: Pedro Gil

terça-feira, 17 de março de 2009

Linhas Cruzadas


Tenho intenção de trespassar estas linhas,
apesar de não saber que sonhos vou acordar.
Quem vai estar à espera neste trilho incerto,
que carris seguir nesta rota errante,
que atalhos vadios eu vou enfrentar.

Acontece de novo um vulto de mulher.
Mas pode ser somente alucinação,
por vezes apenas a imagem desfocada.
Embora dentro deste varado coração,
habite um guerreiro entregue à espada.

Talvez não queira soltar as minhas raízes,
movido pela confusa agitação do desejo.
Porque insisto em ficar aqui parado,
com a dor partida e o corpo amarrotado,
com a luxúria sensual que tem meu beijo.

Mas desta vez vou saltar os obstáculos
que me embargam os movimentos,
que não me deixam deslocar para outro lado.
Acho que vou atravessar estes caminhos,
vou deixar para trás o meu passado.


Texto: Victor Gil
Fotografia: Pedro Gil

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

(...) As Nuvens


Deixem que elas corram ao prazer do vento,
deixem-nas dispersar rente ao prado ondeante,
deixem que as espigas do meu pensamento,
debulhem uma intriga no teu seio de amante.

Que arrastem num grito a minha castidade,
que encham num beijo o amor e a solidão,
que nos lábios livres mordam a verdade,
e os laços se cortem onde aperto a paixão.

Deixem-nas cair onde eu vou beber a mágoa,
onde as espigas se soltam e me ferem o peito,
onde o chão somente rompe em pedras crespas.

Que afastem na aragem gotas de olhos de água,
se soltem correndo em lento e calmo leito,
e em pranto se forme um rio de ervas frescas.

Texto: Victor Gil

Fotografia: Pedro Gil

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

A 10 Passos dos 90



A cidade é um labirinto que pisas lentamente.
As ruas rasgadas de pedras,
portas cercadas que não te deixam partir,
varandas sem grades sobre um rio de lama,
onde as gaivotas roçam as asas sem fugir.

Enquanto os homens alteram as fronteiras,
se rompem de espadas,
ou se ocultam no nome de um deus que consomes.
Entre os sítios talhados nas bermas das cidades,
vagueias nos dias de que não sabes os nomes.

Descobres no frio das tuas mãos,
uma calma medida,
o vagar dos dez passos que faltam,
para encerrar o muro onde se raspa a vida.


Texto: Victor Gil
Fotografia: Pedro Gil

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Os Gatos



Os gatos espiam-nos através da poeira dos vidros,
antevendo o momento
em que eu ocupo o teu lugar.
Alheios aos seios fáceis que me ofereces,
à púbis sedosa que eu penetro,
à boca molhada faminta de beijos,
à cama quieta onde espalhamos os gestos.



Texto: Victor Gil
Fotografia: Pedro Gil



sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Rumos



Lanço o meu olhar para além da breve poeira,
onde pardaceiam as silhuetas da orla da cidade.
Quantos se ausentam desejando outros rumos,
quantos procuram nas novas fronteiras,
com as ferramentas nas mãos,
as rotas derradeiras.

No lado de cá só os recortes das fachadas,
linhas cortando a brisa que incendeia a tarde.
Quantos se inventam nos cultos que jurámos,
quantos ocultam nas lutas que perdem,
as terras verdadeiras,
no sorriso dos que partem.

Não sei que pedras circundar para seguir outro caminho,
como é o sítio da gente nos mapas universais.
Prefiro rasgar de palavras a aragem do desatino,
onde as minhas mão sossegam
na brisa mansa dos devaneios.

Vou escolher ficar aqui sem rumo,
colhendo as amoras bravas dos teus seios.



Texto: Victor Gil
Fotografia: Pedro Gil

A Chegada...



Chego acenando ao cais das amarras vazias,
onde não existem marinheiros ancorados,
nem gruas ou guindastes,
nem tesouros em ilhas desertas,
nem barcos ou tempestades.

Por isso regresso sempre aqui com as ondas nos olhos,
ao aço frio das linhas confusas.
Onde as fragatas não têm velas,
as frotas estão sem arrais,
e os mastros sem caravelas.

Porque é aqui que eu quero o fim da minha jornada,
que agarro o leme do meu tempo,
que as minhas linhas se juntam
e sinto o cheiro da terra molhada.
É aqui o porto da minha chegada.


Texto: Victor Gil
Fotografia: Pedro Gil

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Sem Tempo


O dia entardece entre os varais abandonados,
entre as sombras sem tempo que a tarde consome,
entre as ruas desertas,
as lajes incertas,
e os velhos passos nos caminhos sem nome.

Mas de vez em quando gosto de parar e ouvir o tempo.
Sou um vagabundo das minhas raízes,
do pó das queimadas,
do desvario dos ribeiros,
da aragem do vento que sopra de norte.

Das aldeias mansas de casas caladas,
à espera que o tempo traga outra sorte.



Texto: Victor Gil
Fotografia: Pedro Gil

Escura Densidade


É na brandura do Outono,
que o arvoredo solta as folhas amordaçadas.
Pousam mansamente ignoradas pela ventania,
enquanto eu procuro um tronco nu,
onde possa esmagar a flor da nostalgia.

Pousam entre o musgo e os galhos dispersos,
perseguidas pelo rasto dos répteis.
Deslizam suavemente como lágrimas,
na escura densidade das sombras confusas,
onde o sol amorna as ervas bravas,
entre os rêgos abertos pelas chuvas.



Texto: Victor Gil
Fotografia: Pedro Gil

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

A Solidão


Não me quebrem o silêncio,
nem o ruído destas folhas.
O silêncio é o rito inventado dos que se isolam,
o percurso invariável dos abismos,
o espaço que tu habitas e eu sonho,
que percorro nos limites proíbidos.

Não me apaguem as lajes da solidão,
a almofada de pedra onde me dobro.
As vozes são vagas e as sombras misteriosas,
as madrugadas calmas e as tardes inquietas,
mas os amantes espreitam escondidos,
entre as feridas das paixões secretas.



Texto: Victor Gil
Fotografia: Pedro Gil