Só a sombra afaga esta fogueira de tábuas magoadas. Os restos da janela encobrem a desordem dos lençóis, as feridas em farrapos, os baús fechados, os embrulhos bizarros que ocultam no escuro, os telhados e as folhas que encobrem os becos.
Os terraços já deixaram cair os bichos da incerteza. Alheios à desarrumação decadente da indiferença, à violação dos dias, dos sítios sem nome, às paredes quebradas que arrastam o tempo, onde se esconde o silêncio dos forçados à fome.
Digo bom-dia às ruas, mas só as folhas me respondem. Só os bêbedos afastam a Lua para ver as estrelas, entre as pedras nuas, numa cama estreita, entre os safanões no chão descomposto, entre as tralhas gastas, nova vida espreita.
Já que não posso amanhecer-te, deixo-te que repousar no meu colo. Mas só se adormeceres nas tábuas isoladas, se não falares das coisas que me tentam, se deixares de invadir com rasgões as madrugadas.
Deixo-te repousar da mansidão da noite, sacudir as ruas devoradas pelo sol. Mas não pronuncies as palavras do silêncio, não espalhes os braços que abandonei, porque não quero derramar-me em teu regaço.
Deixa-me mergulhar dentro da manhã, entregar-me à limpidez do dia. Mas não libertes os troncos escondidos, nem as raízes onde eu anseio regressar, nem transformes o momento em ventania.
Vou mandar arrancar os portões, passar para além dos muros, alterar a extremidade das veredas. Afastar os postigos das estrelas, onde me espreitam só as tardes inquietas.
Nada mais existe senão o horizonte a abrir-se ali mesmo adiante, limitado entre os marcos das paredes, entre o clamor da luz do firmamento.
Onde a mudez das pedras são lamentos, onde as orlas dos caminhos são silêncio, sem palavras para mandar calar o vento.